sábado, 23 de abril de 2016

Processos fotográficos do século XIX e problemas de deterioração

Processos fotográficos do século XIX e problemas de deterioração

“Diferentes tipos de processos fotográficos foram introduzidos, floresceram e desapareceram no curto período de 150 anos da história desta tecnologia de produção de imagens”. (MUSTARDO; KENNEDY, 2004, p. 17)
A fotografia, de certa forma, conquistou rapidamente o seu espaço na sociedade que entendia que “cabe a ela [fotografia] prolongar a aparência das coisas, difundir os conhecimentos e conservar a memória.” (CARTIER-BRESSON; 2004, p. 1) É bem verdade que a fotografia torna possível a observação de cenários, indumentárias e costumes de maneira muito mais precisa que qualquer fonte escrita.
“As excepcionais capacidades informativas e didáticas da fotografia abriram novas perspectivas documentais e iconográficas, desbravadas já pelos primeiros fotógrafos que percorriam o mundo, freqüentemente com o auxílio dos poderes públicos”. (CARTIER-BRESSON, 2004, p. 1)
O homem sempre tentou representar a realidade ao seu redor através de desenhos e pinturas. A câmara escura, desenvolvida na Itália renascentista, era um instrumento que auxiliava no desenho. Essa câmara formava uma imagem através da luz que entrava por um orifício e pessoas no mundo todo buscavam uma maneira de fixar essa imagem captada em uma superfície. Contudo, apenas no século XIX foram desenvolvidas diversas técnicas para gravar essa imagem.
Deve ser observado que, apesar da invenção da fotografia ser creditada a Daguerre, estudos recentes comprovam que, em 1833, o francês radicado no Brasil, Hercule Florence (também conhecido com Hércules Florence), desenvolveu um processo fotográfico rudimentar. No entanto, ele permaneceu no anonimato por não ter divulgado na época, de maneira correta, sua descoberta. (ANDRADE, 1997, p.10)
O primeiro processo fotográfico amplamente divulgado e utilizado foi o Daguerreótipo. O pintor e inventor Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851) revelou ao mundo sua invenção no dia 7 de janeiro de 1839. Em agosto do mesmo ano, o Estado francês comprou a patente de seu invento e tornou público os detalhes de fabricação e sua utilização. Todavia, o daguerreótipo não era um processo de baixo custo e nem de fácil reprodução, logo, cada peça era considerada única e preciosa. O próximo passo foi dado por William Herry Fox Talbot (1800-1877) ao descobrir o sistema positivo-negativo. Denominou-se calótipo ou talbótipo o conjunto do negativo em papel e da prova em papel salgado. O calótipo não obteve tanta popularidade, pois a imagem produzida apresentava acentuada granulação decorrente das fibras de papel do negativo que apareciam impressas no positivo não possibilitando, assim, a reprodução perfeita do pormenor. Em 1851, Frederich Scott Archer (1813-1857) substituiu o papel pelo vidro na confecção de negativos, pois era necessário um material que apresentasse uma transparência e polidez que possibilitasse a obtenção de uma imagem positiva sem granulação. Nesse momento também a substância ligante foi desenvolvida com o objetivo de fixar os sais de prata na superfície polida do vidro. Contudo, existiram também outros processos como o ambrótipo que consistia na produção de positivos diretos obtidos a partir de colódio úmido sobre um fundo preto. O ambrótipo surgiu como uma possibilidade menos custosa frente ao daguerreótipo. Logo depois, outro processo, o ferrótipo, usava como suporte uma chapa de ferro esmaltada, tendo o cólodio como ligante e a prata como substância formadora da imagem. Esse processo era efetuado por fotógrafos nas ruas, não sendo necessárias técnicas refinadas para sua obtenção.
Inúmeros processos foram confeccionados utilizando diferentes tipos de suportes, ligantes, substâncias formadoras da imagem e tratamentos químicos visando baratear o custo, obter uma imagem de qualidade e de fácil reprodução. Todavia, pouco depois do desenvolvimento desses processos fotográficos, percebeu-se que apresentavam sérios problemas relacionados à instabilidade, visto que se degradavam com o tempo e, às vezes, perdiam-se por completo. Reilly afirma que a
“literatura dos fotográficos do período 1860-1895 contém inúmeras menções e reclamações sobre o amarelecimento dos destaques em papel albúmen [albumina], embora pareça claro que nem perto de 85% das impressões tinha amarelado a um "grau moderado a grave" durante o período em papel albúmen ainda estava em uso geral”. (REILLY, 1980, p. 107)
Com o objetivo de tentar reverter esses problemas profissionais, quase sempre químicos empíricos, buscaram elaborar técnicas que conferissem mais estabilidade às fotografias. Instituições também buscaram desenvolver pesquisas que apontassem os mecanismos que davam início à deterioração.
“A partir de meados dos anos 1850, a Société Française de Photographie e a Royal Photographic Society de Londres encorajam esses trabalhos. Nos dez anos que se seguiram, os principais fatores de deterioração das imagens à base de sais de prata foram corretamente identificados e circunscritos”. (CARTIER-BRESSON , 2004, p.1)
Esses estudos constataram corretamente que a alta umidade causava o desbotamento e o amarelecimento das fotografias. Esse período foi de experimentação técnica em que também se consolidou a profissão do fotógrafo. Várias modificações químicas e métodos são desenvolvidos visando dissimular ou minimizar as imperfeições e prevenir a deterioração das espécies fotográficas. O dano potencial que afetava as fotografias acarretou uma busca permanente por processos mais duráveis, uma vez que era inegável a importância do registro fotográfico.    
  

Referência

COSTA, Bianca Mandarino da. Conservação e preservação de fotografias albuminadas. Monografia apresentada à Escola de Museologia da UNIRIO. 81p. 2009

MUSTARDO, Peter; KENNEDY, Nora. Preservação de fotografias: métodos básicos para salvaguardar coleções. In: Cadernos técnicos de conservação fotográfica 2. Rio de Janeiro: Funarte, 2004.

REILLY, James M. The Albumen & salted paper book. The history and practice of photographic printing 1840-1895. Light impressions. New York. 1980.


CARTIER-BRESSON, Anne. Uma nova disciplina: a conservação-restauração de fotografias. In: Cadernos técnicos de conservação fotográfica 3. Rio de Janeiro: Funarte, 2004, p. 

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