terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Arte NAIF

Autoria: Juliana Amado

Rio de Janeiro, gosto de você, gosto dessa gente feliz (1988), Lia Mittarakis.
“Naïfs são os poetas anarquistas do pincel.”
(Site do MIAN)
Analisaremos o termo naïf como uma das manifestações da arte popular , que é definido com pequenas variações de conceito, pré-concebidos ou não.

“NAIVE: Palavra francesa que significa ‘ingênuo’. Ver arte ingênua”
“ARTE INGÊNUA. Denominação dada a produção de artistas que vivem numa sociedade sofisticada e em contato com a Arte Erudita, mas que não receberam ensino ou tratamento profissional. A rigor, o termo está associada a artistas ocidentais que traduziram a partir do século XIX. O colorido é geralmente, brilhante e não naturalista, a perspectiva não é exata e o aspecto geral é infantil. Entretanto, os artistas ditos ingênuos não são, necessariamente, amadores ou sem contato com os conhecimentos artísticos. Alguns artistas, extremamente sofisticados, têm buscado, deliberadamente, uma expressão ingênua, sobretudo no século XX. Às vezes a expressão arte primitiva tem sido usada incorretamente, como seu sinônimo. Ver também naive.” (CUNHA, Almir Paredes. Dicionário de Artes Plásticas. Rio de Janeiro: EBA/UFRJ, 2005. P. 229)
O autor cita que os artistas naïfs e / ou ingênuos, são em sua maioria aqueles que não tiveram ensino profissional. Contudo, como o próprio explica, não é uma regra. Existem artistas chamados naïfs, que não são autodidatas, que tiveram tratamento profissional e seguem este caminho por opção, como uma manifestação estilística. É importante ressaltar que a arte naïf, por ser uma arte, em geral, ingênua, autodidata e liberta de regras, sempre existiu, tendo apenas um termo que a designasse, criado no século XIX, após o surgimento de Henri Rousseau no cenário da pintura francesa.
“(...) gesto de manifestações estéticas não eruditas, de inspiração espontânea, aprendizado autodidático e temáticas populares. É ainda uma arte de caráter complexo, variado e individualizada conforme cada pintor que a pratica.” (AQUINO, Flavio. In: Bienal Naïfs do Brasil 1998.Sesc Piracicaba: São Paulo, 1998-s/p).
“O primitivo (...), olha com uma visão altamente pessoal através da cultura que recebeu, mas deslocando-se desta, difere também do artista erudito por não ter um conceito intelectual da arte e da natureza formado por valores elitistas da civilização ocidental.” (FROTA, Lélia Coelho. In: Bienal Naïf do Brasil1998. Sesc Piracicaba: São Paulo, 1998).
Tanto Flavio Aquino como Lélia Coelho Frota caracterizam o pintor Naïf como autodidata e não erudito sem contato com a arte elitista, e mais uma vez, vale bater na mesma tecla utilizada por Cunha: nem todo artista ingênuo/ naïf é autodidata e escolhe a expressão ingênua como uma forma de expressão pessoal.
“O artista plástico dito naïf ou ingênuo é geralmente um autodidata que se expressa plasticamente de maneira instintiva, espontânea e original. Não está preocupado com conceitos, deixando aflorar naturalmente sua sensibilidade, os seus devaneios oníricos, as suas emoções e as experiências adquiridas no seu meio sociocultural, registrando de forma marcante e peculiar as situações fantásticas e inusitadas, assim como os acontecimentos simples, singelos, humorísticos e até mesmo, trágico.” (NASCIMENTO, Antonio. In Bienal Naïf do Brasil. Sesc São Paulo: Piracicaba; São Paulo, 2000 – s/p).
Comparando as definições de naïf dos quatro autores, nota-se que de um modo geral, eles estão de acordo. O contrate fica por conta das definições da antropóloga especialista em cultura popular, Lélia Coelho Frota, que cita os naïfs como primitivos, termo por vezes considerado incorreto por Almir Cunha. Tal fato ocorre, pois, segundo o referido autor, os artistas naïfs nem sempre estão isolados do conhecimento artístico, e a expressão ingênua é buscada propositalmente.

Observa-se que todos os autores são unânimes ao afirmarem que a maioria dos pintores ingênuos são autodidatas e aprendem à base de tentativas eobservação. Devido a isso, acabaram captando e transpondo para suas obras a realidade e a cultura que os cercam, retratando muitas vezes, os hábitos culturais da época e do local em que vivem. Circulando pelo Pelourinho e pelo Mercado Modelo, ambos em Salvador –Bahia, é comum ver a venda quadros de diversos tamanhos de um colorido brilhante, sem muita preocupação com a perspectiva, com o naturalismo, e sobretudo, com temas ligados à Bahia e à cidade de Salvador. As pinturas em geral, representam baianas de vestidos rodados e capoeiristas, na maioria das vezes, negros; e em alguns casos, as casas antigas e as ladeiras do Pelourinho, sem as baianas e os capoeiristas.
Já no Rio de Janeiro, podem-se ver pontos turísticos da cidade, bem como a realidade dos cariocas, como mostra a obra da artista Lia Mittarakis “Rio de Janeiro, gosto de você, gosto dessa gente feliz” (1988), em exposição no Museu Internacional de Arte Naïf – MIAN. Tal obra mostra o Corcovado;o Jóquei; as praias; a enseada de Botafogo; a ponte Rio- Niteroi; o Maracanã e o Aeroporto, que não correspondem à realidade. A artista seleciona aquilo que lhe é importante, aquilo que a seus olhos representa o Rio de Janeiro, colocando tudo em harmonia, num mesmo quadro. Aparentemente, o que lhe interessa é mostrar ao espectador um pouco de cada coisa que representa a chamada “Cidade Maravilhosa” em uma única obra.
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Referências Bibliográficas:
  • AMADO, Juliana. A arte naïf e seu contexto na arte popular. Monografia - graduação em museologia. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2009.
  • ARANTES, Antonio Augusto. O que é cultura popular. Coleção Primeiros Passos. Editora Brasilense, 13° Edição São Paulo, 1998.
  • Bienal Naïfs do Brasil. Sesc São Paulo, Piracicaba, São Paulo, 2000.
  • CHAVES, Luís. A Arte Popular – aspecto do problema. Portucalense Editora S.A.R.L., Porto – Portugal: 1943.
  • CUNHA, Almir Paredes. Dicionário de Artes Plásticas. Rio de Janeiro: EBA / UFRJ, 2005.
  • FINKELSTEIN, Lucien. Brasil Naïf – Arte Naïf: Testemunho e patrimônio da humanidade. 1° ed. Novas Direções, Rio de Janeiro: 2001.
  • FINKELSTEIN, Lucien; LEREBOURS, Michel – Philippe; THOMPSON, Alisson. Encontros e Reencontros na Arte Naïf: Brasil – Haiti. Ministério das Relações Exteriores: 2005.
  • FINKELSTEIN, Lucien. Miranda. Imprinta, Rio de Janeiro: 1980
  • FINKELSTEIN, Lucien. Naïfs Brasileiros de Hoje – 46° Feira do Livro de Frankfurt. Câmara Brasileira do Livro, São Paulo: 1994.
  • Guia de Museus Brasileiros / Universidade de São Paulo. Comissão de Patrimônio Cultural. – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2000. – ( Uspina – Brasil 500 anos)
  • LUCENA, Armando de. Arte Popular. Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa – Portugal: 1942.
  • Melhoramentos Minidicionário da língua portuguesa. – 1. Ed. São Paulo: Melhoramentos, 1992
  • MIRANDA, Danilo de Santos. Bienal Naïf do Brasil 1998. SescPiracicaba: São Paulo, 1994.
  • STABENOW, Cornelia. Rousseau. Taschen: Köln –Alemanha, 2001.
  • WERNER, Alfred. Henri Rousseau. Editorial Timun Mas, S.A, Barcelona, 1959.

Outras fontes:
  • Histórico do Museu Internacional de Arte Naïf, enviado pela equipe do museu.
Folhetos
  • A. Rosalino: Imagens Universais / organização de César Baía.- Rio de Janeiro: Funarte, CNFCP, 1999. (Sala do Artista Popular; n°79)
  • Expressão Popular – Coleção Cesar Aché. Centro Cultural Light:2001
  • Lirismo: pinturas de Barbara Deister / pesquisa e texto de Carla Costa. – Rio de Janeiro: Funarte, CNFCP, 1999 (Sala do Artista Popular, n° 77)
  • Naïfs do nosso Brasil. Exposição n° 3 – Telmo Carvalho. MIAN: 12 de junho a 5 de setembro de 1999.
  • Lourdes feliz, Lourdes Ferraz: pinturas / organização e pesquisa de Maria helena Torres.- Rio de Janeiro: Funarte, CNFCP, 1997. (Sala do Artista Popular, n°68)
  • Os futuros grandes da arte naïf. Exposição n° 1 – Bebeth. MIAN: 21 de maio 14 de julho de 1996.
  • Os futuros grandes da arte naïf. Exposição n° 5 – Paulina LaksEizirik. MIAN: 22 de maio a 24 de agosto de 1997.
  • Os futuros grandes da arte naïf. Exposição n° 6 –Helena Coelho. MIAN: 8 de janeiro a 22 de março de 1998.
Internet
  • D’AMBROZIO, Oscar. Henri Rousseau- o pai da arte naïf. In artCanal.
  • DIAS FILHO, Clovis dos Santos. Cultura Popular: arte e artesanato.
Disponível em:http://www.cult.ufba.br/maisdefinições/ CULTURAPOPULAR.pdf
  • Iracema Arditi
Disponível em:http://Iracema.org/
  • Museu de ART. BR.
  • Museu internacional de Arte Naïf – MIAN.
Disponível em:http.//www.museunaif.com.br/index.asp?cid=1
  • Olga’sGallery – Henri Rousseau.
  • Wikpédia – Henri Rousseau
  • Wikpédia – José Rodrigues de Miranda.
  • Wikpédia – Lista de Museus do Brasil

Revistas / Textos
  • BAÊTA NEVES, Luiz Felipe. O paradoxo do coringa e o jogo do poder e saber. Rio de Janeiro: Achiamé, 1979.
  • VELHO, Gilberto. Cultura popular e sociedade de massas: uma reflexão antropológica. Piracema – Revista de artes e cultura. Ano 1 n°1. Brasil, 1993.

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