quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Construtivismo e abstracionismo

Autoria: Juliana Amado

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O Construtivismo foi um movimento artístico de vanguarda que surgiu por volta do ano de 1913 na Rússia, tendo como influência o cubismo[1] de Georges Braque e Pablo Picasso. Apresenta como característica o ideal de abstração: rejeita de qualquer alusão à natureza. Rompe com a representação do real e passa a adotar uma nova linguagem plástico-pictórica: "O mundo da não-representação" (Kasimir Malevich). 

Pode-ser observar um elo, uma ponte, entre a arte construtivista russa e outras manifestações artísticas abstratas, como o expressionismo, de Wassily Kandinsky; o De Stijl/ Neoplasticismo, representado por Piet Mondrian; e o suprematismo, de Malevich.
O construtivismo se sobressaiu na escultura, uma vez que os construtivistas quebraram com o conceito tradicional do termo “esculpir”, ao acompanhar o avanço da industrialização e experimentar novos materiais, de naturezas diversas, apresentando, desta forma, a idéia de construir. Isso favoreceu a composição em elementos geométricos. Desta forma, a indústria e a tecnologia tiraram da arte a “obrigação” de representar o real. Embora o construtivismo tenha predominado na escultura, ele também se manifestou na pintura, com El Lissitzki; na fotografia, com Aleksandr Rodtchenko e nas construções tridimensionais, com Vladimir Tatlin, por exemplo.

Alguns autores, como Argan (1992), dizem que o construtivismo russo tratava-se da arte integrada à vida cotidiana e à realidade social. Nos anos 1930, na era Stálin, a revolução artística perde a força. O governo não compreendia que o construtivismo tinha uma ligação com os ideais socialistas, e via os artistas como elitistas que tinham o objetivo de fazer com que a arte clássica e tradicional não chegasse ao proletariado. Assim, artistas como Rodtchenko caíram no ostracismo, e outros saíram da Rússia, indo lecionar na Bauhaus, na Alemanha.
Segundo o texto de Léon Degand (apud Cocchiarale e Geiger, 1987), “é abstrata toda pintura que não invoca, nem nos seus fins, nem nos seus meios, as aparências visíveis do mundo.” Porém, a fotografia sempre carrega consigo um rastro do real, uma vez que o artista/ fotógrafo sempre fotografa algo, mesmo que tenhamos dificuldade de definir o que foi fotografado. Devido a essa relação com o real, há, em geral, uma curiosidade do espectador em saber qual foi o objeto fotografado, mesmo que isso não seja um detalhe significativo da foto. E não raro, ouve-se a pergunta “O que é isso?”, quando se está diante de uma fotografia abstrata.
A fotografia abstrata começou a aparecer na época do construtivismo russo, mais ou menos paralelo ao desenvolvimento da pintura abstrata, com Aleksandr Rodtchenko e László Moholy-Nagy, que propuseram novos ângulos inusitados. Nem todas as fotos de ambos os artistas eram totalmente abstratas, mas eram inovadoras e contribuíram para que a fotografia pudesse também percorrer pelo caminho da abstração, como vinha fazendo a pintura e outras manifestações artísticas. Retomando o que foi escrito num parágrafo anterior, embora a fotografia nunca esteja totalmente liberta de alguma alusão ao real, o abstracionismo desobriga o fotógrafo de representar o real de uma forma mais direta e óbvia, dando mais liberdade ao artista fotógrafo de “brincar” com a imagem. Tal “brincadeira” foi se tornando mais fácil com o passar dos anos e o desenvolvimento da tecnologia, que fez com que as câmeras fotográficas, antes gigantescas e pesadas, fossem ganhando versões mais leves e compactas. A praticidade para carregar equipamentos favoreceu a busca por ângulos insólitos.
No Brasil, a fotografia abstrata começou a se destacar por volta da década de 1940, com o Foto Cine Clube Bandeirantes, cujos fotógrafos romperam com a tradição pictorialista e acadêmica. Tivemos também artistas que exploraram a fotografia construtivista vinda das de arquitetura – embora tardias, se comparado ao movimento. Como exemplo, pode-se citar as fotos feitas através de microscópios por José Oiticica Filho e os fotogramas[2]de Geraldo de Barros.


[1] CUBISMO.” Movimento artístico que começa em 1909, liderado por Pablo Picasso (1881-1973) e Georges Braque (1882-1963), cujas raízes teóricas foram baseadas em Paul Cèzanne (1839-1906). Foi uma tentativa de representar completa e exaustivamente, numa superfície plana, todos os aspectos que o artista vê em três dimensões. Ele pode ser dividido em três fases: a fase cezaniana, o Cubismo analítico e o Cubismo sintético. A primeira é aquela mais associada à obra de Cèzanne. O Cubismo analítico apresenta diferentes aspectos do mesmo objeto, simultaneamente, abandonando a perspectiva convencional, usando vistas superpostas. O Cubismo sintético faz uso dos insights adquiridos através do Cubismo analítico, transpondo para todas as coisas vistas para uma linguagem dos signos visuais, criando um símbolo equivalente para cada objeto, tornando a pintura uma realidade paralela e não o reflexo da realidade que o pintor observa. Utilizam a técnica da collage como um meio de trazer a realidade para a obra e romper com a bidimensionalidade do processo.” (CUNHA, 2005. p.238-239)
[2] Técnica que consiste na produção de fotografia diretamente no papel fotográfico, sem o uso de negativo.
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Bibliografia:
• AMADO, Juliana. Releitura das artes plásticas e a arte fotográfica. Monografia (Pós-graduação) – Fotografia: Imagem, Memória e Comunicação; Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro, 2011. (Orientador: Prof. Dr. Andreas Valentin)
• ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
• BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
• COCCHIARALE, Fernando. GEIGER, Anna Bella. Abstracionismo geométrico e informal: a vanguarda brasileira nos anos cinqüenta. Rio de Janeiro: FUNARTE, Instituto Nacional de Artes Plásticas, 1987.
• COSTA, Helouise. SILVA, Renato Rodrigues da. A fotografia moderna no Brasil. São Paulo: Cosac Naify, 2004.
• COTTON, Charlotte. A fotografia como arte contemporânea. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.
• CUNHA, Almir Paredes. Dicionário de Artes Plásticas. Rio de Janeiro: EBA/ UFRJ, 2005.
• HOCKNEY, David. O Conhecimento secreto. São Paulo: Cosac Naify, 2001
• FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta. Ensaios para uma futura filosofia da fotografia. São Paulo: Editora Hucitec, 1985.
• FARTHING, Stephen. 501 Grandes Artistas. Rio de Janeiro: Sextante, 2009.
• RICKEY, George. Construtivismo. São Paulo: Cosac Naify, 2002.

Outras fontes:
• MORELLI, Rinaldo. Fotografia Abstrata. In: Fotoclube f/508. Disponível em: http://www.fotoclubef508.com/post.php?id=39

Fotografia de: Rodchenko

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