sábado, 23 de abril de 2016

Mulheres no estudo da astronomia


Mulheres no estudo da astronomia

Tosi afirma que a Astronomia foi a ciência que mais despertou o interesse dos homens e mulheres burgueses e nobreza por conta das descobertas realizadas por Newton e o estabelecimento das leis dos movimentos planetários estabelecidos por Kepler.
Nesse momento a astronomia demandava não apenas conhecimento teórico, mas também prático como, por exemplo, polimento de lentes e fabricação de instrumentos, como também o desenvolvimento de cálculos. Esse se tornou o momento de participação das mulheres ocupando posições secundárias. (TOSI, 1998, p.384) Não diferindo do restante das ciências, os nomes das mulheres começam a aparecer na astronomia à sombra dos homens fosse, pai, irmão ou marido cientistas, a quem ajudavam em seus trabalhos, observações, nos cálculos e nas classificações ou no prosseguimento das pesquisas depois da morte dos mesmos.
No século XVIII, as astrônomas mais famosas foram Caroline Herchel (1750-1848) e Maria Winkelmann (1670-1720). Caroline trabalhou com o irmão, William, na fabricação de telescópios e observação das estrelas. O governo britânico concedeu uma pensão de £200 anuais a William por seu descobrimento de Urano. Anos depois foi a vez de Caroline ganhar uma pensão estatal de £50 pela descoberta de nove cometas. Tornou-se assim a primeira mulher a ser remunerada por seus trabalhos.
Já Maria Winkelman enfrentou muita oposição acadêmica. Winkelman aprendeu com o astrônomo Christoph Arnold e trabalhou em seu observatório como aprendiz realizando observações, cálculos e preparação de calendários. Posteriormente, casou-se com Gottfried Kirch também astrônomo e quando este ingressou na Academia de Berlim, Maria tornou-se sua assistente, mas sem um cargo oficial. Em 1702, Maria descobriu um cometa, contudo seu marido levou o crédito pela descoberta que, oito anos depois, reconheceu que a observação havia sido feita pela esposa. Nesse momento, após a morte do marido, não obteve o cargo de assistente que tinha em vista para continuar a confecção dos calendários. Maria continuou seus trabalhos em casa com seu filho, Chrisfried. Voltou a Academia em 1716 para ser sua assistente dele. Contudo, após sucessivas críticas, Maria, no ano seguinte, retirou-se definitivamente para fazer suas observações em casa.
Nicole-Reyne Etable de la Brière (1723-1788), conhecida como Madame Lepaute interessava-se por matemática e astronomia. Em 1757, foi incumbida por Joseph Jérôme de Lalande, também astrônomo de realizar os cálculos para determinar a data da reaparição do cometa Halley. Esse trabalho altamente complexo foi solicitado a Lalande pelo astrônomo e matemático Alexis-Claude Clairault. Posteriomente, Lalande afirmou que sem ela não poderia executar a árdua tarefa, nada obstante o mérito foi atribuído a Clairault. Como autora, efetivamente, figura em sua dissertação sobre o eclipse anular do sol de 1764.
No século XIX, nos Estados Unidos, muitas mulheres começaram a empreender trabalhos nas “áreas da astronomia de posição, à espectrografia, à fotometria em mais tarde à espectroscopia”. (MOURÃO, 2009, p.31) Maria Mitchell (1818-1889) foi admitida como professora de astronomia em 1876.
Um fato marcante no século XIX foi um trabalho desenvolvido no Observatório Astronômico de Harvard. O astrônomo Edward Pickering contratou uma composta apenas por mulheres para desenvolver um sistema de classificação das estrelas. Era composta pelas físicas: Anna Palmer, Williamina Fleming (1857-1911), Antonia Maury (1866-1952), Annie Cannon (1863-1941) e Enrietta Leavitt (1868-1921). Garcia afirma que o motivo pela contratação de mulheres foi o orçamento limitado (os salários das mulheres eram menores). O trabalho consistia em cálculos muito complexos e, por fim, o sistema revolucionou a astronomia sendo usado até os dias de hoje. Leavitt descobriu as estrelas variáveis, ela faleceu em 1921 e foi indicada para o Prêmio Nobel de Física em 1925. Posteriormente, Cannon desenvolveu um sistema de classificação de estrelas (sistematizando mais de 400 mil estrelas) que foi adotado como pela União Astronômica Internacional.
Na America Latina, atualmente, as mulheres ocupam cerca de 30% a 40% do total. No Brasil, a primeira astrônoma profissional foi Yeda Veiga Ferraz Pereira (1925-) que trabalhou no Observatório Nacional, em 1950. Nos anos 80, ela empenhou-se na disseminação de pesquisas e na criação de cursos de astronomia pelo Brasil. Na atualidade, Heloisa Boechat é Diretora do Observatório do Valongo, ligado à UFRJ e entrou para a história da ciência como a primeira mulher a comandar um observatório no Brasil.
“Hoje muitas mulheres se dedicam as carreiras científicas, mas foram necessários muitos anos de lutas nessa direção” (MOURÃO, 2009, p.32). Além disso, muitos autores acreditam que a participação das mulheres na construção da ciência é muito maior do que se sabe, tendo em vista, principalmente algumas das personalidades femininas já citadas. Para Garcia o
“esquecimento da mulher na ciência foi criado durante séculos e os historiadores, voluntariamente ou não, ocultaram a presença das mulheres nas atividades cientificas. Talvez por desconhecimento, talvez por receio ou mesmo pelo machismo impregnado na cultura humana”. (GRACIA, 2010)  
De fato, sabe-se hoje que muitas mulheres que trabalharam em parceria com seus familiares são pouco citadas (ou omitidas) em seus resultados finais e por conseqüência sendo esquecidas pela história da ciência. Logo, ainda existe um longo caminho para resgatar essa história da ciência feita pelas mulheres.
  

Referência

  
GARCIA, S. Eloi. A mulher e a ciência. Fiocruz. Disponível em: <http://www.fiocruz.br/ccs/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=582&sid=4> Acesso: 23 abr. 2010

MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. As mulheres na astronomia. In: Urânia – Publicação da Associação de Amigos do Museu de Astronomia. Ano 2, nº3. p. 28-32. abril 2009.

TOSI, Lúcia. Mulher e ciência - A Revolução científica, a caça às bruxas e a ciência moderna. In: Cadernos Pagu. (10) pp.369-397. 1998. Disponível em: <http://www.pagu.unicamp.br/files/cadpagu/Cad10/pagu10.14.pdf> Acesso: 23 abr. 2010.
Imagem. Computadores de Harvard. Disponível: <http://cafecomciencia.wordpress.com/2009/10/> Acesso: 28 jan. 2011.


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