sábado, 23 de abril de 2016

A fotografia como fonte histórica



A fotografia como fonte histórica

Deve ficar claro que o homem sempre tentou representar a realidade ao seu redor através de desenhos e pinturas. A câmara escura, desenvolvida na Itália renascentista, era um instrumento que auxiliava no desenho. Esse aparelho formava uma imagem que, através da luz, entrava por um orifício onde havia uma lente que projetava uma imagem invertida e nítida do objeto. Por muitos anos pessoas no mundo todo buscaram uma maneira de fixar essa imagem captada em uma superfície. Entretanto, apenas no século XIX foram desenvolvidas diversas técnicas para gravar/registrar essa imagem.
Logo, desde a invenção, por Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851) do primeiro processo fotográfico denominado daguerreótipo, em de janeiro de 1839, a fotografia despertou o interesse de diversas áreas da ciência, visto que tornou possível a gravação, com o uso da luz, de um fragmento do “real”, colocando de lado assim as imprecisões a que poderiam estar sujeitas a observação humana ou desenhos e gravuras feitas por artistas.
Contudo, com relação à análise da fotografia, de maneira geral, é necessário ter em vista que “toda a fotografia tem sua origem a partir do desejo de um indivíduo que se viu motivado a congelar em imagem um aspecto dado do real, em determinado lugar e época”. (KOSSOY, 2009a, p. 36)
As fotografias guardam, na sua superfície sensível, a marca indefectível do passado que as produziu e consumiu. Um dia já foram memória presente, próxima àqueles que as possuíam, as guardavam e colecionavam como relíquias, lembranças ou testemunhos. No processo de constante vir a ser recuperam o seu caráter de presença, num novo lugar, num outro contexto e com uma função diferente. (MAUAD, 1996, p. 10)  
Provavelmente por essa mesma razão, apesar da ampliação do conceito de documento ser relativamente antiga na historiografia, remontando à Escola de Annales, a fotografia ainda enfrente dificuldades para ser usada pelos pesquisadores como fonte histórica. Segundo Boris Kossoy,
o problema reside justamente na sua [dos pesquisadores] resistência em aceitar, analisar e interpretar a informação quando esta não é transmitida segundo um sistema codificado de signos em conformidade com os cânones tradicionais da comunicação escrita. (KOSSOY, 2009a, p. 30)   
Além disso, diversos autores salientam que a fotografia ainda é comumente utilizada apenas como “ilustração ao texto”, como é possível ser notado no seguinte trecho de obra de Maria Teresa Bandeira de Mello e Fernando Pires-Alves a propósito das fotografias realizadas pelas expedições sanitaristas do Instituto Oswaldo Cruz:
durante muito tempo os historiadores, de maneira geral, ignoraram as fontes iconográficas enquanto tais. Restritos aos documentos escritos, só recorriam a elas sob a forma de ilustrações, muitas vezes tomadas como autoevidentes e autoexplicativas, desprezando, por conseguinte, aquilo que tinham de mais significativo: suas relações com os momentos históricos nos quais vieram à luz. (MELLO; PIRES-ALVES, 2009, p. 139-179)
Recentemente essa visão tradicional vem sendo substituída pela noção da fotografia como “fonte histórica de abrangência multidisciplinar” (KOSSOY, 2009b, p. 21), à medida em que são desenvolvidas ações que visam “sistematizar suas informações, estabelecer metodologias adequadas de pesquisa e análise para a decifração de seus conteúdos e, por conseqüência, da realidade que as originou”. (KOSSOY, 2009a, p. 32)
Kossoy esclarece que há três elementos constitutivos imprescindíveis para execução de uma fotografia: o assunto, o fotógrafo e a tecnologia. Deve-se notar, ainda, que esses elementos fazem parte de um processo ocorrido em determinadas coordenadas de tempo e espaço, o qual deu origem a um produto final que é a fotografia. É possível então dizer que o assunto é o tema (fração do “real”), o fotógrafo é o autor, enquanto que a tecnologia é o meio (o maquinário, o produto fotossensível, e as técnicas empregadas para a fixação do registro por meio da ação luminosa), os três elementos juntos dando origem à fotografia (registro de um fragmento do “real”). Logo, é possível afirmar que toda a fotografia é resultado da ação humana (fotógrafo) que, em um dado tempo e espaço, escolheu um assunto e, para registrá-lo, usou os recursos disponíveis da tecnologia. (KOSSOY, 2009a, p. 37.) Kossoy esclarece também que o fotógrafo atua como “filtro cultural” uma vez que é ele quem seleciona a fração do real a ser registrada, organiza os detalhes visuais componentes do assunto, e utiliza os meios tecnológicos, ações essas que irão influenciar no resultado fotográfico final.
Partindo do princípio que “toda a fotografia tem por trás de si uma história” (KOSSOY, 2009a, p. 45) e que “toda fotografia foi produzida com uma certa finalidade” (KOSSOY, 2009a, p. 47) foi realizado o levantamento referencial das fotografias realizadas pelos membros da Comissão Exploradora do Planalto Central, e principalmente pelo cientista Henrique Morize. Posteriormente foi realizada uma análise de cada fotografia individualmente, visto que “a imagem não fala por si só; é necessário que as perguntas sejam feitas.” (MAUAD, 1996, p. 10)

Referência

COSTA, Bianca Mandarino. Fotografias da Comissão Cruls: uma análise da imagem. Monografia de Especialização apresentada à Coordenação do Curso de Pós-Graduação em Preservação de Acervos de Ciência e Tecnologia. Museu de Astronomia e Ciências Afins. 2010. 101 p.

CARTIER-BRESSON, Anne. Uma nova disciplina: a conservação-restauração de fotografias. In: CADERNOS técnicos de conservação fotográfica. Rio de Janeiro: Funarte, 2004. n. 3.

KOSSOY, Boris. Fotografia & História. Rio de Janeiro: Ateliê editorial. 2009a.

KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. Rio de Janeiro: Ateliê editorial. 2009b.

MAUAD, Ana Maria. Através da imagem: fotografia e história interfaces. Tempo, Rio de Janeiro, vol. 1, n °. 2, 1996, p. 73-98. Disponível em: <http://www.historia.uff.br/tempo/artigos_dossie/artg2-4.pdf> Acesso: 17 set. 2010.

MELLO, Maria Teresa Villela Bandeira de; PIRES-ALVES, Fernando. Expedições científicas, fotografia e intenção documentária: as viagens do Instituto Oswaldo Cruz (1911-1913). História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.16, supl.1, jul. 2009, Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702009000500008&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt> Acesso: 17 set. 2010.

Imagem. Imagens históricas. Disponível em:< http://www.d-olhonomundo.blogspot.com/2011/01/imagens-historicas-2.html> Acesso: 29 jan. 2011.


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